Tatiane Rocha Vieira, mestranda em Sociologia pelo PPGSOL e integrante do Laboratório desenvolve a pesquisa intitulada “O Protagonismo das Professoras Negras nas disputas sobre gênero, sexualidade e raça no Ensino de Sociologia” investiga como docentes de Sociologia abordam temas de gênero, raça e sexualidade confrontados pelas reações conservadoras mobilizadas pelo pânico moral e a “ideologia de gênero” que afetam diretamente os currículos e as práticas pedagógicas. A pesquisa é um desdobramento do projeto desenvolvido coletivamente pelo Laboratório de Ensino Lélia Gonzalez da Universidade de Brasília: “A construção da identidade profissional docente em Sociologia frente aos desafios curriculares e pandêmicos no Brasil”, de responsabilidade do Professor Marcelo Cigales (PPGSOL/UnB). Esta reuniu 185 questionários on-line de professores(as) de Sociologia das escolas brasileiras (em 2022) e 52 entrevistas semi-estruturadas on-line (em 2023 e 2024).
A problemática da dissertação de Vieira é a analise das dificuldades das professoras negras para abordar temas sobre gênero, raça e sexualidade nas aulas de Sociologia e como estas agem nesse contexto. O referencial teórico mobiliza autorias de Foucault, Butler, Patrícia Collins, Glória Anzaldúa, Maria Lugones, bell hooks, Lélia Gonzalez e Sueli Carneiro. Nesse âmbito, os feminismos negros e decoloniais são um eixo analítico relevante para analisar 16 relatos de professoras que se autodeclaram negras. Os dados são interpretados a partir de uma triangulação entre análise de conteúdo categorial temática, análise crítica do discurso e da interseccionalidade proposta pelo pensamento feminista negro. Dentre os principais temas considerados como sensíveis e conflituosos no Ensino de Sociologia estão: gênero e sexualidade, religiões de matrizes africanas, racismo, aborto, política, religião. As narrativas indicam efeitos do neoconservadorismo nas práticas pedagógicas como: vigilância, denúncia, medo, censura, silenciamento, perseguição, assédio, sofrimentos, violências e adoecimentos das docentes.

Esta pesquisa demonstra a importância de se problematizar a interseccionalidade entre gênero e raça como marcadores para se apreender as identidades docentes, pois o neoconservadorismo intensificou as violências e desigualdades marcadas por sexismo e racismo que já eclodiam no cotidiano da escola. Nesse contexto, apesar do sexismo e racismo estruturarem historicamente os ambientes e práticas nas escolas, o neoconservadorismo recrudesceu seus efeitos ao incidir mais gravemente nos corpos e subjetividades marcados por gênero e raça interseccionados. Outras categorias como classe, território e religião também elucidam as variadas formas em que sexismo, racismo e neoconservadorismo se imbricame operam diferencialmente a depender das múltiplas identidades docentes interseccionais. Portanto, interpretar os discursos das docentes é central para delinear as nuances das relações entre poderes, saberes e discursos que operam diferencialmente os dispositivos da sexualidade e da racialidade em territórios atravessados pelos desdobramentos históricos do colonialismo e dos efeitos da colonialidade. Analisar os efeitos desses discursos sobre os corpos e subjetividades de mulheres negras é relevante para compreender como estas docentes configuram saberes e vivências singulares e disputam essas narrativas. Essa dimensão analítica permite apreender as potencialidades das agências e resistências.
Não obstante às opressões, racismos e violências, estas professoras negras mantém uma identificação afetiva e engajada politicamente com a docência e com a crença na educação como veia de transformação pela práxis na construção de um conhecimento resistente e antirracista capaz de engendrar justiça social. Essa perspectiva alinha-se à uma ética de cuidado de si que se concretiza politicamente no cuidado coletivo como forma de confrontar o dispositivo de racialidade. Assim a identificação e o engajamento com a educação e as ressignificações da docência traduzem para as professoras negras possibilidades de enfrentamento e reversão do dispositivo de racialidade e do epistemicídio ao disputar os sentidos de reconhecimento e de autodefinição confrontando as imagens de controle se implicando epsitemologicamente como agentes de conhecimento e sereescrevendo politicamente como protagonistas em suas histórias e no Ensino de Sociologia em uma perspectiva engajada, crítica, transgressora (transformadora/ criativa), antirracista e democrática.
A pesquisa está em fase de conclusão e tem previsão de ser apresentada para a banca de mestrado em junho de 2026.