Autores: Diego Loiola e Mateus Novais

Tema da Aula

A observação e o estranhamento do comum no conto Amor, de Clarice Lispector.

 

Objetivos

 

Promover a observação crítica dos elementos ordinários e naturalizados no cotidiano de cada estudante e o exercício de deslocamento reflexivo do olhar sobre o comum a partir da leitura e do diálogo com o conto Amor de Clarice Lispector.

 

O que as/os estudantes podem aprender com essa atividade

 

Espera-se que a leitura do conto e a atividade proposta propiciem reflexão sobre os comportamentos mecanizados e os automatismos que marcam a vida social nos cenários contemporâneos. As/os estudantes também devem ser capazes de perceber de que maneira normas e padrões de relacionamento socialmente instituídos se manifestam na esfera de ação de cada indivíduo, em suas atividades mais rotineiras e aparentemente desprovidas de constrangimentos ulteriores. Por fim, dado o privilégio da temática da condição feminina no conto, espera-se ainda que as/os estudantes possam destacar as relações entre os constrangimentos evidenciados e o que a autora chamou “destino da mulher”.

 

Roteiro

 

  1. Leitura coletiva do conto Amor, de Clarice Lispector (20-30 min);
  2. Entregar a atividade (anexa) para que, em grupos, as/os estudantes identifiquem relação entre os trechos extraídos do conto e as assertivas interpretativas elencadas (20 min);
  3. Compartilhar com a sala as relações identificadas na atividade (20 min);
  4. Orientações para avaliação a ser realizada em casa (10 min);
  5. Retorno dos registros feitos em casa para exibição coletiva em sala (em aula seguinte, duração a definir)

 
 

 

Conteúdo

         

          O conto Amor, de Clarice Lispector, trata da condição existencial humana, especificamente da mulher. A autora recorre ao simbolismo por trás de uma epifania, um acontecimento marcante ou uma revelação súbita, enxurrada de pensamentos e reflexões sobre a realidade e sobre a vida.

Embora de uma primeira leitura superficial possam não transparecer os sentidos mais densos explorados pela autora, da observação mais atenta ao enfoque psicológico e ao seu estilo introspectivo, emergem pensamentos e dilemas mais espinhosos sobre a mente humana. O recurso a frases simples e lógicas que escondem significados mais profundos tem um efeito desestabilizador sobre o leitor, bem como a recorrência dos temas cotidianos, banais, inusitados, tem efeito igualmente desestabilizador sobre as personagens cuja psique é ao mesmo tempo a fonte e o rio por onde corre a literatura de Clarice. Para esta atividade o foco proposto está no encontro (mais ou menos ruidoso) dos elementos ordinários da vida com os acontecimentos reveladores e intuitivos das contingências, representados pelo fenômeno da epifania e resultando em processos complexos de reavaliação existencial.       A personagem principal do conto, Ana, é uma dona de casa em sua expressão mais tradicional: cuida dos filhos, do marido e guarda o lar limpo e organizado, atividades rotineiras que lhe asseguram um estado pacificado de completude. A narradora evidencia que a vida da personagem era boa, e que em alguma medida Ana era responsável pela vida de cuidados que lhe justificava a estabilidade, pois fora resultado de uma escolha própria: a transição entre a vida da “paixão” (instável, contingencial) e a vida marital e familiar (estável, cômoda) . Tal estado de acomodação pacífica do espírito, no entanto, é posto em xeque diariamente na “hora perigosa da tarde”, quando marido e filhos estão ocupados e a casa está em ordem e, assim, já não reclamam sua atenção e seu trabalho. É durante a hora perigosa, em que Ana não está ocupada, que se desenrola o cerne da trama.

          Ao voltar das compras para casa, no bonde em movimento Ana segurava sua sacola exatamente como o fazia todos os dias, no caminho de sempre. Mas uma imagem lhe interrompe a calma da rotina: ela vê um cego parado na rua, mascando chicletes e tateando no escuro. A imagem que não era estranha aos outros transeuntes anestesiados pela exposição ao corriqueiro, lhe causou um impacto profundo, retirando-lhe a paz do seu distanciamento do mundo. Nesse breve momento de epifania Ana sente-se invadida por um mal-estar de empatia, um sentimento pungente de compaixão e piedade, como se ela própria mastigasse a dor do cego na escuridão.

          Ana ficou tão perturbada que perdeu o ponto de descida, e na freada súbita do bonde, desequilibrou-se e deixou cair a sacola de pano tecida por ela (alusão as suas próprias escolhas), quebrando-se os ovos que trazia nela (os ovos representam a fragilidade da vida, matéria que ela usara para preencher a hora perigosa da tarde). Com os ovos quebrou-se também o significado da vida de Ana. Ela saiu do piloto automático e se deu conta do que estava ao redor: um casal dá as mãos, uma mãe embala o filho e um cego masca chicletes no escuro. Mudando o seu rumo habitual, Ana se vê no jardim botânico onde jamais pensara estar e se depara com a beleza selvagem do mundo, a imponência das árvores, dos frutos e das sementes em coexistência com as misérias e mazelas da existência humana. Ela se sente responsável e nauseada por todo o sofrimento e ao mesmo tempo mergulhada em impotência.

          A diversidade de temas passíveis de abordagem na aula de sociologia é vasta: a condição da mulher, a vida familiar, perspectivas de classe, urbanização e trabalho, etc. Para essa atividade, no entanto, esperamos tratar o conto, a obra literária, como uma espécie de etnografia do vivido, movidos pela riqueza de significados extraídos de uma descrição aparentemente simples de acontecimentos corriqueiros. Assim, espera-se provocar as/os estudantes e criarem seus próprios registros, destacando a pluralidade de significados por trás de eventos antes tidos como desimportantes ou vazios de significados.

         

 

Forma de avaliação

 

          A avaliação consistirá em um registro individual e livre em forma de prosa, poesia, canção, ilustração, performance, etc., a respeito de alguma situação/ experiência/memória/evento em que a/o estudante tenha experimentado uma epifania, ou um acontecimento revelador, sobre algum hábito cotidiano. A leitura do conto e a discussão em sala devem fornecer os instrumentos para que as/os estudantes registrem alguma experiência pessoal de estranhamento do ordinário, perceber alguma coisa que não percebiam antes. A critério da/do docente, é possível sugerir ainda que o registro do acontecimento inusitado ou transformador possa ser ficcional.

 

 

Materiais

 

  • Conto Amor, de Clarice Lispector (impresso ou digital);
  • Projetor e tela para leitura coletiva do conto (opcional);
  • Cópias impressas do exercício anexo;
  • Materiais de suporte para a atividade avaliativa (folha de papel, gravador, materiais e suportes de arte diversos, etc.)

Anexos

 

Orientações para atividade em sala

 

          A uma lista com 8 assertivas interpretativas as/os estudantes devem correlacionar trechos extraídos diretamente do conto. A proposta é entregar os trechos destacados e sortidos, de modo que cada um possa ser associado a mais de um enunciado através da marcação do número identificador (1 a 8). Em tempo, as assertivas e os trechos selecionados aqui são sugestões e podem ser alterados conforme necessidades e critérios da/do docente.

 

Assertivas interpretativas

 

( 1 ) A personagem principal, Ana, é uma dona de casa de classe média, dedicada ao cuidado do lar e da família;

 

( 2 ) No quadro da tradição patriarcal as tarefas domésticas são responsabilidade das mulheres, enquanto os homens são considerados os provedores e os agentes do mundo público;

 

( 3 ) A expressão da subjetividade das mulheres pode ser tolhida pelas exigências impostas pelo casamento;

 

( 4 ) O casamento representa uma transição entre a vida da “paixão” e a vida familiar;

 

( 5 ) A experiência de epifania desestabiliza e desorienta a personagem principal;

 

( 6 ) A personagem principal se vê invadida por um sentimento de compaixão, piedade e dolorosa empatia;

 

( 7 ) Uma característica da vida nos contextos contemporâneos é a indiferença diante da alteridade;

 

( 8 )  Uma característica da vida nos contextos contemporâneos é a repetição automática de comportamentos rotineiros;

 

 

 

Trechos selecionados

 

“Os filhos de Ana eram bons, uma coisa verdadeira e sumarenta. Cresciam, tomavam banho, exigiam para si, malcriados, instantes cada vez mais completos. A cozinha era enfim espaçosa, o fogão enguiçado dava estouros. O calor era forte no apartamento que estavam aos poucos pagando.”

 

“Crescia sua rápida conversa com o cobrador de luz, crescia a água enchendo o tanque, cresciam seus filhos, crescia a mesa com comidas, o marido chegando com os jornais e sorrindo de fome, o canto importuno das empregadas do edifício.”

 

“Todo o seu desejo vagamente artístico encaminhara-se há muito no sentido de tornar os dias realizados e belos; com o tempo seu gosto pelo decorativo se desenvolvera e suplantara a íntima desordem. Parecia ter descoberto que tudo era passível de aperfeiçoamento, a cada coisa se emprestaria uma aparência harmoniosa; a vida podia ser feita pela mão do homem.”

 

“Dela havia aos poucos emergido para descobrir que também sem a felicidade se vivia: abolindo-a, encontrara uma legião de pessoas, antes invisíveis, que viviam como quem trabalha — com persistência, continuidade, alegria. O que sucedera a Ana antes de ter o lar estava para sempre fora de seu alcance: uma exaltação perturbada que tantas vezes se confundira com felicidade insuportável. Criara em troca algo enfim compreensível, uma vida de adulto. Assim ela o quisera e escolhera.”

 

“Sua precaução reduzia-se a tomar cuidado na hora perigosa da tarde, quando a casa estava vazia sem precisar mais dela, o sol alto, cada membro da família distribuído nas suas funções. Olhando os móveis limpos, seu coração se apertava um pouco em espanto. Mas na sua vida não havia lugar para que sentisse ternura pelo seu espanto — ela o abafava com a mesma habilidade que as lides em casa lhe haviam transmitido. Saía então para fazer compras ou levar objetos para consertar, cuidando do lar e da família à revelia deles. Quando voltasse era o fim da tarde e as crianças vindas do colégio exigiam-na. Assim chegaria a noite, com sua tranqüila vibração. De manhã acordaria aureolada pelos calmos deveres. Encontrava os móveis de novo empoeirados e sujos, como se voltassem arrependidos. Quanto a ela mesma, fazia obscuramente parte das raízes negras e suaves do mundo. E alimentava anonimamente a vida. Estava bom assim. Assim ela o quisera e escolhera.”

 

E como uma estranha música, o mundo recomeçava ao redor. O mal estava feito. Por quê? Teria esquecido de que havia cegos? A piedade a sufocava, Ana respirava pesadamente. Mesmo as coisas que existiam antes do acontecimento estavam agora de sobreaviso, tinham um ar mais hostil, perecível... O mundo se tornara de novo um mal-estar. Vários anos ruíam, as gemas amarelas escorriam. Expulsa de seus próprios dias, parecia-lhe que as pessoas na rua eram periclitantes, que se mantinham por um mínimo equilíbrio à tona da escuridão — e por um momento a falta de sentido deixava-as tão livres que elas não sabiam para onde ir.”

 

“Um cego mascando chicles mergulhara o mundo em escura sofreguidão. Em cada pessoa forte havia a ausência de piedade pelo cego e as pessoas assustavam-na com o vigor que  possuíam. Junto dela havia uma senhora de azul, com um rosto. Desviou o olhar, depressa. Na calçada, uma mulher deu um empurrão no filho! Dois namorados entrelaçavam os dedos sorrindo... E o cego? Ana caíra numa bondade extremamente dolorosa.”

 

Só então percebeu que há muito passara do seu ponto de descida. Na fraqueza em que estava tudo a atingia com um susto; desceu do bonde com pernas débeis, olhou em torno de si, segurando a rede suja de ovo. Por um momento não conseguia orientar-se. Parecia ter saltado no meio da noite.”

 

“Mas quando se lembrou das crianças, diante das quais se tornara culpada, ergueu-se com uma exclamação de dor. Agarrou o embrulho, avançou pelo atalho obscuro, atingiu a alameda.”

 

“Sentia-se banida porque nenhum pobre beberia água nas suas mãos ardentes. Ah! era mais fácil ser um santo que uma pessoa! Por Deus, pois não fora verdadeira a piedade que sondara no seu coração as águas mais profundas? Mas era uma piedade de leão.”

 

Referências Bibliográficas

 

LISPECTOR, Clarice. O amor. In. Laços de Família. Editora Rocco, 1998. (Edição digital: https://premiumglobalmagazine.files.wordpress.com/2015/12/clarice-lispector-lac3a7os-de-familia.pdf)